A justiça existe?

Justiça é um substantivo abstrato, portanto, não é concreto, palpável, tocável, tangível. Ela existe, mas só em nosso imaginário, porque se formos procurá-la em algum local não a encontraremos.

Escutamos em algum momento da vida alguém dizer: “Fulano fez justiça com as próprias mãos”. O que ele fez? Onde estava a justiça no instante em que o ato foi cometido? Foi justo ou não? A justiça aconteceu ou não?

A justiça deve (ou deveria) ser cega; assim como a deusa Têmis tem os seus olhos vendados, nós também precisamos tê-los, para não olharmos um só lado e termos a sabedoria em decidir sobre o que é justo ou não.

 Não há um manual de justiça, ainda que legisladores, juristas, advogados ou quaisquer estudiosos insistam em dizer que é possível compreendê-la, e o que é pior ou mais difícil, praticá-la.

O juiz julga de acordo com os autos e o que interessa a todos é a motivação. Por que o crime foi cometido? Os juízes, advogados de defesa e promotores jamais saberão, porque a motivação é interna e só quem o cometeu pode sabê-lo, e talvez nem ele mesmo saiba.

Qual o objetivo do crime cometido? Precisamos ser racionais para podermos definir, mas o que é certo é que talvez nunca consigamos essa definição. A justiça (praticada em tribunais) erra, como qualquer um pode errar. Se errar é humano, eu posso errar, você também, e o juiz, não? “Mas quem pode gabar-se de conhecê-la ou de possui-la totalmente?”, pergunta André Comte-Sponville.

Não deve ser fácil a vida de um juiz. Chegar todos os dias em casa e não ter a certeza que a justiça foi feita. Somos todos subjetivos. Quando você escuta alguém dizer “Não conheço Beltrana, mas não vou com a cara dela” é racional? É objetivo? Certamente não. Quando você participa de uma entrevista de emprego, o entrevistador é objetivo ou subjetivo? Nunca vamos saber. Se ele foi com a sua cara, o emprego será seu. Mas o que a sua cara precisa ter para ser aprovado (a)?

O juiz, o entrevistador, o pai, a mãe, o chefe, todos eles tentarão ser justos, mas nem sempre vão conseguir, porque a justiça não é um objeto, definido, sólido. A justiça não é como um guarda-chuva, que ao abri-lo você estará protegido da chuva. A justiça talvez seja a própria chuva, que vai e vem, às vezes avisa outras vezes não. Mas ela sempre vai estar ali. Muitas vezes não vamos enxergá-la, mas a sentiremos de algum modo.

Alguns acreditam que a justiça é como a mudança ou como aquela roupa que achamos bonita. Deve ficar bonita só nos outros, em nós não. Ser justo é dividir em partes iguais. Ser justo é ter empatia. O quanto temos sido justos em nossas vidas? Dividimos mais ou acumulamos mais?  Qual o nosso conceito de justiça?

Discutir se a justiça existe não é o mais importante. O que precisamos mesmo é tê-la dentro de nós e não nos livros ou tribunais. Se passarmos a olhar mais para dentro, certamente o que está fora se tornará mais belo. Justiça, portanto, não tem a ver com razão. E sim com emoção.

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