Por que não vivemos a nossa vida?

Antes de mais nada lembro que este texto, assim como todos os outros, é uma reflexão. Portanto, não há verdades ou mentiras, só pensamentos, ideias e um pouco de provocação.

De imediato alguém diria: “mas eu vivo a minha vida”! Será? Algumas perguntas nos farão refletir se a afirmativa é verdadeira ou se cabe algumas reflexões.

Primeira pergunta. Para que tiramos fotos em todos os lugares que vamos? Alguns dirão que é para guardar de recordação, mas a maioria, talvez de forma inconsciente, sabe que as fotos são para serem mostradas aos outros. Se estou num bar e a cerveja chegou gelada, tiro uma foto dela e coloco em minhas redes sociais. Qual o objetivo? Mostrar aos outros que eu estou tomando uma cerveja gelada, que estou num belo ambiente, que estou feliz e que nem todos podem participar presencialmente desse momento.

Há pessoas que não curtem o momento do pôr-do-sol, uma viagem especial, uma paisagem bonita, um lugar diferente. Elas precisam antes de curtir, tirar uma foto, para mostrar a alguém o quão estão felizes naquele momento. Será que realmente estão? Curtir o momento ou postar para que os outros curtam?

Segunda pergunta. Por que queremos sempre estar na moda? Porque necessitamos fazer parte. Talvez essa seja a resposta mais sincera. Fazer parte é estar inserido ou inserida. É não estar de fora, não estar à margem. Precisamos ser iguais àqueles que julgamos tão bons ou melhores que nós. Precisamos ser diferentes daqueles que julgamos inferiores a nós. Por isso, fazemos parte de um grupo que segue a moda, que usa o tênis de marca famosa, que compra uma roupa nova ou especial para o Réveillon, que possui uma área gourmet em sua casa, que troca de celular quando o seu grupo de referência também já trocou.

Vivemos a vida do outro quando não fazemos escolhas por nós, mas por eles, por pessoas que julgamos mais importantes, ainda que não assumamos isso. O que somos, o que temos, o que queremos, tudo é em função do outro. Como viveríamos se não pudéssemos mostrar ao vizinho a casa que temos, o nosso jardim, a nossa piscina? Como viveríamos se as pessoas que conhecemos não pudessem ver que estamos felizes comendo uma feijoada num sábado de sol? Ou uma moqueca de peixe com camarão no domingo? Ou um churrasco no feriado?

 Ainda que sejamos independentes, e disso nos orgulhamos sempre, nunca seremos. Dependemos do elogio alheio, da curtida, das palminhas nas redes sociais, da aprovação, do aplauso do outro. Artistas sobem ao palco e esperam ser ovacionados. Nós também agimos assim no dia a dia. Qual cantor ou cantora não quer sentir o aplauso do público? Desejamos o reconhecimento, seja pelo nosso trabalho, pela nossa condição econômica, ou pela nossa felicidade, ainda que ela não seja tão real quanto pareça.

Deveríamos viver a nossa vida em silêncio, mas não conseguimos, temos que contar ao outro, especialmente as coisas boas que nos acontecem, porque as ruins preferimos esquecê-las ou escondê-las. Sempre viveremos a vida do outro e o outro a nossa, porque somos parte do rebanho e por mais que reclamemos, gostamos de viver assim. Felizes são, portanto, aqueles que conseguem se desprender dessa teia, porque eles realmente podem se dizer livres, e quando os encontramos olhamos para eles de forma diferente, e lhes chamamos de loucos.

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